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04/02/2016 - A escola (e o mundo) antes e depois do WhatsApp

Por * Sérgio Rizzo

Sala lotada e atenta de sétimo ano do ensino fundamental. Pouco mais de 30 alunos, a maioria com 13 anos de idade. O assunto é história do cinema, mas a conversa se desloca até o desenvolvimento dos meios de comunicação. Lembro a eles que, na minha infância, não havia telefone celular; tínhamos apenas os aparelhos fixos com disco. Encerrada a aula, uma aluna se mantém com os olhos estatelados à minha frente. "Professor, não é possível", diz ela. "Se não havia celular, como é que funcionava o WhatsApp?". Explico que não havia o WhatsApp - o hoje popular aplicativo de mensagens - justamente porque não havia celular. E ela, ainda mais surpresa: "E como é que as pessoas se comunicavam?".

Todos os alunos dessa turma, em uma escola particular de São Paulo, têm telefone celular. É proibido usá-lo durante as aulas, mas no intervalo eles o acionam. Falam entre eles, falam com os pais. Usam o aparelho para diversos outros fins, inclusive para se desculpar com o professor. Sim, isso mesmo. Durante uma exibição de filmes, retirei da sala dois alunos que insistiam em fazer bagunça e os levei à coordenadora. Ela sugeriu que a dupla pensasse em uma maneira criativa de "limpar a barra" comigo. Na semana seguinte, antes da aula, os dois se adiantaram para mostrar um vídeo que fizeram no celular de um deles. Era uma animação bem-humorada que reconstituía o episódio da bagunça. Ao final do vídeo, um sonoro pedido feito em dueto: "Desculpa, professor!".

O prazer de dar aulas para crianças e adolescentes inclui dezenas de histórias como essas, aqui selecionadas para exemplificar dois pontos: (1) a geração "milenar", nascida nos anos 2000, incorporou naturalmente o uso de tecnologias que, para alguns educadores, ainda parecem cifradas - entre em uma sala de professores e experimente perguntar, por exemplo, quem sabe fazer um vídeo de animação no celular; (2) os "milenares", muitas vezes, acreditam que o mundo sempre foi assim, como se apresenta a eles hoje. Alguém poderia lembrar: e não somos todos, até certa altura da vida, seduzidos por esse mesmo equívoco, o de acreditar que o mundo começou no dia em que nascemos?

Pode ser. Mas o que de fato interessa aqui é assinalar que jamais houve, na história da educação, tamanho fosso entre os hábitos de comunicação (e as práticas sociais derivadas deles) dos professores e os de seus alunos. Essa distância pode representar algo perigoso: perder de vista como as crianças e os jovens de hoje processam informação e desenvolvem conhecimentos. Sem essa percepção, dar aula corre o risco de virar um tiro no escuro - e a escuridão do passado inclui sistemas e procedimentos que talvez não funcionem mais como um dia funcionaram (se é que funcionavam mesmo). Nesse cenário, surpreende que tantos educadores ainda sejam resistentes a usar e a melhor compreender, no seu cotidiano, tecnologias, aparelhos, redes, aplicativos etc. Renunciam, assim, a se aproximar do universo de seus alunos. Caberia perguntar por que desejaram ser professores.

*Jornalista, professor, crítico de cinema e autor de Cinema e Educação – 200 filmes sobre a escola e a vida

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