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27/07/2015 - Déficit de aulas é de 20% no RN

Quase um quinto das aulas exigidas pelo currículo escolar da rede estadual não é lecionada por falta de professores. De acordo com dados da Secretaria Estadual de Educação e Cultura (SEEC), os 12 mil professores ativos na rede não conseguem suprir a necessidade de 69 mil aulas mensais nas 657 escolas estaduais.

Por coincidência ou não, o déficit na carga horária é mais crítico nas disciplinas de matemática e ciências, nas quais o desempenho dos estudantes potiguares, refletido pelos índices nacionais de educação, é pífio. De acordo com a SEEC, 23% das aulas de matemática necessárias para a rede não são ministradas.

Os cálculos e a interpretação dos números são um “calo” para boa parte dos estudantes da rede pública. De acordo com levantamento da ONG Todos pela Educação, divulgado em julho, apenas 4% dos estudantes que saem do Ensino Médio no estado possuem conhecimento básico em matemática. O percentual foi calculado com base no desempenho de 2.795 alunos na Prova Brasil e no índice SAEB, ambos realizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas em Educação Anísio Teixeira (Inep) entre 2013 e 2014.

Em ciências, o Rio Grande do Norte amargou o terceiro pior desempenho no ranking nacional dos estados no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), realizado pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (ODCE). No último levantamento sobre esta disciplina, em 2009, a média dos alunos do RN foi de 369,4 pontos. A média nacional era 405 pontos.

Para os alunos da rede estadual, sejam do ensino fundamental ou médio, os “horários vagos” são uma realidade comum e, geralmente, irreversível. Na Escola Estadual 15 de Outubro, na Zona Norte de Natal, os estudantes do 8º ano do Ensino Fundamental estão sem aula de matemática desde o início do ano. Nem fizeram prova. Como a carga horária dos docentes é limitada a 30 horas semanais, a única professora de matemática da escola, Maria das Graças Bezerra, precisou escolher qual série deixaria sem aulas neste ano. “Só consigo dar aula em cinco das sete turmas. Saí do 8º ano e fui para o 9º ano para não deixar eles sem aula para o IFRN”, conta a professora, que estimula os alunos a tentarem o exame de seleção do instituto federal: em 2014, dois foram aprovados.

Gestores e especialistas em educação são unânimes: para não mais se escandalizar com os índices, o RN precisa reformar o currículo, valorizar o professor, garantir infraestrutura para escolas. Uma fórmula antiga, mas que se bem aplicada, pode reverter o quadro negro que se desenha para a educação.

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Problema começa na base do ensino

Mesmo que os resultados de índices nacionais se revelem piores na porta de saída da educação básica – o ensino médio –, a deficiência vem de baixo. Embora o país como um todo tenha melhorado os índices de alfabetização e de inclusão das crianças na escola, a base ainda apresenta deficiências com a formação do chamado “analfabeto funcional” ou “decodificadores.” Neste caso, o aluno é capaz de decodificar, mas não de interpretar, o que impossibilita a assimilação da maioria dos conteúdos básicos.

“Não é uma questão de tentar resolver o problema do ensino médio, os problemas começam no ensino fundamental dois. É um processo de transição na forma como a escola se organiza e na vida das crianças, que estão entrando da adolescência”, analisa o gerente de conteúdo do relatório De Olho nas Metas, Ricardo Falzetta.

Segundo o levantamento De  Olho nas Metas, apenas 15% dos estudantes que saem do ensino médio público no RN possuem proficiência em português. Mas o problema vai além da escrita, leitura e oralidade. O PISA 2012, que avaliou o ensino de matemática, apontou que 36,7% dos 640 estudantes tiveram problemas com a interpretação de problemas.

Para a professora Tatyana Mabel, coordenadora do Grupo de Estudos em Ensino da Matemática e da Língua Portuguesa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), há outros fatores no desempenho e que passam pela reformulação no modelo de ensino brasileiro. Um deles, por exemplo, é como atrair o jovem para aquilo que ele aprende. “Apenas recentemente os documentos regulamentadores do ensino têm orientado a efetiva democratização linguística, sugerindo a diversidade de gêneros textuais, de autores a serem lidos e de variantes linguísticas focalizadas, saindo do modelo que priorizava o texto literário canônico como objeto de aprendizagem”, analisa.

Melhorias                                                                                                                               

Para a diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública (Sinte/RN), Fátima Cardoso, dois fatores precisam ser melhorados junto ao docente: a formação, inicial e continuada, e a valorização. Os baixos salários e de estrutura das escolas, para ela, contribuem com a redução do interesse com a profissão. Além disso, segundo ela, o currículo das universidades foca no teórico e trazem pouca prática; ou seja, não preparam o professor para a sala de aula.

De acordo com dados da UFRN, há uma redução no número de formandos nas licenciaturas do currículo “básico” das escolas (veja infográfico). Em matemática, por exemplo, apenas 19 alunos se formaram em 2014. Em 2010, 48 alunos se formaram. Segundo a pró-reitora adjunta de Graduação, a média de saída de estudantes nas licenciaturas deve ser de 37.

A SEEC afirma que tem trabalhado o incentivo, junto às escolas, para a reformulação dos planos político-pedagógicos. Para a coordenadora de projetos do Ensino Médio, Vera Reis, os índices do Ideb não representam o atual momento da educação do estado. “Não representa. As escolas são sorteadas e, infelizmente, tivemos uma escolha que não representa o trabalho desenvolvido por todo o ensino médio”, defende.

“Eu acho que as dificuldades que tivemos este ano, como o preenchimento do quadro de professores, dificultam que possamos avançar nos índices neste ano. Estamos trabalhando para resolver os gargalos. A partir de 2016 é que poderemos avançar em qualidade”, admite a secretária estadual adjunta de educação, Socorro Batista. A SEEC iniciou um processo de convocação de professores cedidos, dos quais 158 já se apresentaram; convocará os últimos aprovados do concurso de 2011 e prepara a convocação de temporários, que pode chegar a até 900.

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Com deficiência de professores, avaliações são improvisadas

Os problemas de desempenho e comportamento de estudantes são comuns na Escola Estadual Dinarte Mariz, em Mãe Luiza. De acordo com a coordenadora pedagógica Análya Cristina Leite, os alunos sequer conseguem atingir a pontuação mínima para cada bimestre – que, no caso das escolas estaduais, é de seis pontos.

“Reunimo-nos e tentamos mudar as avaliações: as provas do bimestre não valem seis pontos, compensado com mais quatro pontos por outras atividades. Fazemos gincanas em que as atividades envolvem conteúdo de português e matemática”, conta a coordenadora. Sem professor de história desde o ano passado, Análya precisou aplicar provas por conta própria. “Fiz uma prova para eles levaram para fazer em casa, e mesmo assim ninguém tirou dez”, diz a educadora, frustrada. Professor de português também segue em falta há três meses.

Para o professor de matemática Amaro de Souza, que leciona na escola estadual há 19 anos, o problema da matemática reside no acúmulo de deficiências. “O que a gente percebe é que o aluno vem com deficiência na base nas quatro operações fundamentais, principalmente multiplicação e divisão. A impressão que eu tenho é que eu só consigo dar aula o 6º ano se explicar o conteúdo do 5º ano. Só assim para a dificuldade diminuir”, avalia.

Desempenho

De acordo com o levantamento os dados da Prova Brasil e do índice SAEB de 2013 e 2014, os índices de desempenho da disciplina decresce ao longo das etapas do ensino. Até o 5º ano, o índice de aprendizado a disciplina ultrapassa o de língua portuguesa: segundo o levantamento (veja infográfico), dos 36,6 mil alunos avaliados, 33% apresentaram proficiência mínima no aprendizado esperado para a etapa. Já na conclusão do 9º ano,  o aprendizado cai para 14,2% na disciplina.

Na visão de estudiosos, a dificuldade enfrentada por estudantes com matemática pode ser resolvida com uma mudança na forma de ensinar. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Matemática em Rede Nacional, o professor Luciano da Nóbrega acredita que é possível reformular o ensino. Uma das mudanças seria explicar aos estudantes como chegar a uma fórmula, em vez de apenas mostrá-la no quadro. “A proposta é exercitar o senso crítico do aluno por meio da demonstração, mostrando como chego até aquela fórmula”, pontua.

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Falta estímulo a professores e alunos

“Tem dia que eu venho para uma sala de aula e me sinto inútil.” O desabafo da professora Dione Maria Adriano, que leciona língua portuguesa há oito anos na Escola Estadual 15 de Outubro, no conjunto Santarém, Zona Norte da cidade. “A gente luta todo dia numa escola pública pelo básico”, completa.

São 558 alunos que estudam do 1º ao 9º ano do ensino fundamental na escola. A unidade atende as comunidades do José Sarney, Dom Pedro I, João Paulo, Nossa Senhora da Apresentação. A violência, o tráfico, as drogas são vocabulário comuns entre os alunos.

A escola, que nunca passou por uma reforma, aparenta os 30 anos: a pintura amarela descasca, as janelas quebradas, lâmpadas queimaram com infiltrações e um ventilador pegou fogo pelo problema na parte elétrica. Ao redor, o capim cresce. Os portais das salas estão carcomidos pelo cupim. Um laboratório com nove computadores e a lousa digital, entregue há dois anos pelo Estado, nunca foi utilizada pela ausência de duas peças. Completando o cenário está a quadra de esportes, cujo teto, em formato de abóbada, o piso, ainda de areia, e os vestiários nunca foram concluídos. Ainda assim, na tarde da última terça-feira, quase 20 meninos jogavam futebol na quadra.

“O ano passado, uma aluna veio me perguntar quanto eu ganhava, e eu disse. Ela me perguntou: professora, como é que ganhando tudo isso você ainda faz greve? Sempre que a gente faz greve não é por salário, mas por estrutura que não temos”, conta a professora de matemática Maria das Graças Bezerra Dantas, 44 anos. Ela também reclama da mudança adotada pela Secretaria Estadual de Educação e Cultura desde o início do ano: a redução de uma aula na carga horária das disciplinas de português e matemática. Antes eram cinco aulas semanais por turma, agora são quatro. De acordo com a SEEC, um dos pontos que justificam a medida foi a necessidade de adequação da carga horária dos professores: lei nacional aprovada no ano passado determina que 1/3 da carga horária dos professores seja destinado ao planejamento de aulas. “Se estava ruim, agora é que vai ficar pior (o Ideb)”, lamenta a professora de português Dione Maria Adriano.

Fonte: Tribuna do Norte

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