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22/07/2015 - Professor narra em livro histórias sem final feliz da escola pública

"O professor observa o menino no canto da sala, afastado. Sozinho. Suando frio. Esfregando a mão dentro da calça. Estranha. Aproxima-se, com calma. O aluno de cabeça baixa, concentrado. A mão dentro da calça. Esfregando. Não percebe a chegada do professor. Assusta. Coloca de volta, rápido. Sobe o zíper. O professor, meio sem jeito, pergunta:
- O que é isso, Lucas
O aluno não vê outra solução. Abaixa o zíper. Mostra o revólver.
- Ah! Tudo bem. Pensei que tivesse fazendo outra coisa.

- Ô, que isso. Ta tirando, prussô?"

É assim com textos curtos, diretos e uma linguagem coloquial que o professor de história Rodrigo Ciríaco, 31, narra o cotidiano da escola pública na periferia de São Paulo no seu livro "Te Pego Lá Fora" (Editora DSOP, 2014). Esqueça as palavras doces e o final feliz. Aqui é vida real.

O 'prussô' [professor] conta histórias das violências que envolvem a escola pública: o tráfico, as agressões, os problemas familiares, a morte, a gravidez na adolescência, os assaltos. Relata um pouco como foram os seus anos como aluno e, depois, como professor de história.

"O livro é um grande mosaico de várias histórias que vivi, observei e ouvi. Comecei a escrever, primeiro, para sobreviver a esse ambiente caótico que é a escola pública, tinha que encontrar uma válvula de escape para as angústias, a revolta. Além da indignação, muitas histórias não podiam passar em branco, não podiam ser esquecidas, atos criminosos que acontecem tão rotineiramente e que acabam se tornando banais. Então, relatar essas histórias seria uma forma de questionar esse ambiente, essa banalidade sobre o assunto", diz Ciríaco.

Para fazer esses relatos, o professor decidiu escutar as histórias que ecoavam na escola e usou a sala de aula como laboratório também para saber como elas deveriam ser contadas. "Ouvi bastante a molecada, a maneira que eles falavam as gírias, os neologismos, para fazer o registro das múltiplas vozes dentro da escola, não só dos professores, mas também dos alunos".

Na infância, não tinha em quem se inspirar, mas mesmo assim alimentou aos poucos o gosto pela leitura. "Meu pai estudou até o 2º grau e a minha mãe, até a 4ª série. Nunca tive uma figuração de observação, nunca tive muitos livros e revistas, mas sempre que eu pedia um livro eles corriam para buscar, nunca me negaram o direito à leitura", afirma. Começou pelos quadrinhos, super-heróis e Turma da Mônica, e logo tomou contato com a poesia e a literatura, mas só começou a escrever mesmo em 2004, quando começou a participar de saraus na periferia de São Paulo.

Assim, começou a narrar o cotidiano da escola pública, que conhece e frequenta desde a infância na zona leste de São Paulo. Concluiu o ensino médio na rede estadual e tinha o sonho de ser professor. Acreditava na escola pública. Tentou entrar na USP, mas não conseguiu ser aprovado no vestibular de primeira. Estudou mais um pouco e assumiu a cadeira no ensino superior. Seguia na educação pública e gratuita. E achou que deveria retribuir.

"Eu entrei na universidade já com esse objetivo: formar-me como professor e trabalhar na rede pública de ensino. Achava que tinha aptidão e queria devolver para a sociedade esse investimento que foi feito em mim, na minha formação", afirma Ciríaco.

Depois de 14 anos como professor, atuando nas redes municipal e estadual, ele deixou a sala de aula para se dedicar aos livros, aos projetos de formação literária (que também realiza em parceira com escolas) e saraus na periferia. Foi agredido diariamente pela dureza da sua realidade, mas diz que continua acreditando na escola pública.

"A educação tem que ser pública e gratuita, para todos, para a inclusão (...). Sou fruto da escola pública", diz. "Não saio [da sala de aula] frustrado, porque sempre trabalhei da melhor forma dentro das condições que eu tinha, mas saio com um sentimento de derrota porque não consegui ver a escola mudar e melhorar como eu gostaria. Como um soldado que tem que se aposentar sabendo que fez o que pode com as armas que tinha em mãos".

Fonte: Uol Educação

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