Entrevistas

28/02/2013 - Secretária Betânia Ramalho fala sobre projetos para Educação

Nessa entrevista exclusiva ao site Observatório da Educação do RN, a secretária estadual de Educação, Betânia Ramalho, falou dos planos para alavancar os índices educacionais do Estado e destacou que o foco da sua gestão são os professores. A secretária também demonstrou preocupação com o índice de analfabetos e falou sobre a importância da participação dos pais no processo de aprendizagem.

Betânia Leite Ramalho é doutora em educação, integra o grupo de pesquisadores do Departamento de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), pesquisadora do CNPq e já foi presidente da Comperve. Desde 1995 é professora da universidade. Confira a entrevista na íntegra.

Como anda a educação no Rio Grande do Norte?

Destaco vários setores começando pelo reajuste salarial dos professores.  Nos 21 meses de governo a governadora implantou algo que há muito tempo não acontecia no estado, o reconhecimento salarial, que estava bastante defasado. No primeiro ano de governo houve um reajuste de 34% e em março de 2012 mais 22,22% que foi o piso nacional. Entre setembro do ano passado e março deste ano, foi concedido mais de 63% de reajuste para os professores. Também solucionamos uma série de direitos dos professores, desde a aposentadoria, que estavam represada há mais de seis anos. Até o primeiro semestre deste ano todos os aposentados que entraram com pedido estão sendo aposentados em um tempo muito reduzido. Já aposentamos mais de 2.200 professores e servidores. Também pagamos uma série de dívidas que estavam represadas desde professores temporários, além de gratificações. Estamos pendentes em relação a duas gratificações que é a vertical, que eu já estou encaminhando para a secretaria de administração e as horizontais que vão ser sanadas até o inicio do próximo ano letivo, que começa no dia 18 de fevereiro. Ainda em relação aos professores houve um grande avanço.  Iniciamos o ano de 2011 com professores temporários em um numero bastante expressivo , mais de mil temporários e mais de mil estagiários. Em novembro do ano passado fizemos um concurso público para 3.500 professores e pedagogos. É um grande avanço porque há muito tempo um concurso não era efetivado. Fiz questão de falar dos professores pois eles são a peça fundamental. Valorização do professor em questões salariais, em questão de contratação de novos professores, garantindo a aposentadoria daqueles que já estão no final de carreira e o plano de cargos que ainda está pendente mas a governadora se propõs a equacionar essa questão já no próximo ano. Do ponto de vista do projeto pedagógico da secretaria, escrevemos junto com as escolas por meio de varias jornadas pedagógicas, o novo projeto de educação da secretaria, que procura dar uma unidade ao projeto de educação, com foco no ensino, na aprendizagem e no acompanhamento. Nenhum projeto educativo é bem sucedido se ele não tem por um lado, um protagonismo dos professores, com formação, a questão salarial mas também a formação pedagógica, com vários cursos de formação. A grande obrigação nossa, responsabilidade e interesse é que esses cursos surjam da necessidade  formativa desses professores, que venham a atender a formação pedagógica com dois pontos de equilíbrio: qualidade pedagógica e valorização dos professores.

 
Como a senhora pretende melhorar os índices do IDEB aqui no estado?

Projeto pedagógico com foco no ensino e na aprendizagem. Quem melhora esses índices é o professor, responsabilidade suprema do professor que tem a tarefa de fazer com que ensino e aprendizagem aconteçam sob a sua tutela, essa responsabilidade não é da secretaria. A secretaria tem que dar o aporte, tem que dar o rumo junto com os professores, por isso que estamos investindo em muita formação pedagógica, muita discussão sobre o próprio papel e a valorização dos professores, pois sem eles  nós não faremos nada. O índice do IDEB que temos recebido hoje ainda é um reflexo dos anos passados, espera-se que a medida que vamos motivando os professores, dando mais condições, com melhor infra-estrutura e ai entra a questão dos prédios escolares. Ao chegarmos aqui a rede estava bastante defasada. Até hoje temos mais de 90 ações de intervenções para recuperação, pequenos consertos e ampliações de escolas. Temos planejamento e pela falta de um planejamento de anos anteriores termina-se chegando ao acúmulo e ao procedimento de trabalhar sob pressão. Estamos tentando equacionar essa fase, para que o planejamento permanente aconteça de uma forma natural, sem precisar ter acúmulo de prejuízos porque o maior prejudicado é o aluno, a interrupção das aulas, com isso vai gerando esses indicadores de qualidade que são também reflexo de uma má gestão.

 
Qual a sua avaliação sobre o resultado do ENEM deste ano?

O ENEM não reflete nada de novo, já sabemos que esse novo modelo é muito mais seletivo, é mais para selecionar pras universidades do que realmente avaliativo. O exame mostra os rumos que devemos seguir, porque as exigências que são postas exigem muita leitura,  compreensão do que se lê e interpretação, com foco na atualidade no conhecimento e no conteúdo das disciplinas do ensino médio. Então o contexto é muito valorizado numa situação problema, pois sai da decoreba para a situação mais próxima do conhecimento. O resultado do exame ganha uma repercussão forte porque não adianta decorar. O ENEM e o vestibular da UFRN estão muito próximos. Faço uma avaliação positiva em relação ao projeto de questões e mais positiva ainda porque isso é um rumo, focar nas habilidades básicas, ler, saber interpretar, saber produzir um texto corretamente, porque o enem também exige uma capacidade de argumentação e de tomada de posição do aluno, que são habilidades importantes para a formação dos nossos jovens.

 
Como envolver os pais no processo de aprendizado?

Cada escola tem na sua equipe um conselho escolar, que tem representação da escola, de professores e familiares. Nesse momento estamos fazendo atividades de divulgação desse conselho, para torna-lo muito mais ativo e para que mobilize mais familiares. Como todo nós sabemos a escola não pode sozinha responsabilizar-se por tudo que acontece, principalmente num momento em uma realidade em que as demandas, as complexidades da sociedade chegam à escola, levam as famílias a se desprenderem muito mais de uma obrigação de acompanhar o filho. Por onde você olhe e por onde as mudanças sociais aconteçam sem a família junto fica muito mais difícil. Acredito que nós não conseguimos atingir as metas se os familiares não estiverem junto com a escola, os professores sendo apoiados pelos familiares, pela própria secretaria e das equipes pedagógicas. Na verdade é um sistema.

 
Qual a sua avaliação sobre os índices de analfabetismo no RN e o que fazer para melhorar esse quadro?

As regiões Norte e Nordeste continuam sendo as mais preocupantes. Apesar de ter vários programas do Governo Federal, com associações, ongs, o tema do analfabetismo não é um tema que passa sem proposta, sem projeto. No entanto temos que avançar num projeto formativo do analfabeto, geralmente ele é um adulto que já teve várias inserções na escola e por alguma razão não permanece, porque tem q sair da escola para ingressar na força do trabalho ou porque ele não se encontra, não se vê, não se reconhece no projeto de escola. Para isso, a secretaria está lançando próximo ano um grande projeto de alfabetização junto com o projeto de educação de jovens e adultos. Vamos aproveitar um grande evento que já estamos programando com o Ministério da Educação, que é a comemoração dos 50 anos do Método de Paulo freire em Angicos. Com isso vamos avançar no plano estadual de educação de jovens e adultos. Estamos chamando especialistas da universidade federal da Paraíba, Pernambuco e daqui também. Faremos uma série de atividades mas o foco maior é fazer com que esse projeto de educação no RN seja retomado, com o currículo diferenciado conciliando a educação escolar com o trabalho. O conceito de alfabetização tem que ser ao longo da vida, ou seja, letrar. Fazer com que o letramento passe a ser uma categoria que o jovem ou o próprio adulto acione permanentemente. Inserir esse adulto no mundo do letramento não é uma tarefa fácil, até porque as pessoas que acumulam esses índices de analfabetismo estão muito distanciadas das regiões onde a convivência com o letramento é mais presente. Fazer com que haja uma conscientização no sentido pleno do que Freire colocava, a conscientização de que se você não se insere nesse mundo alfabético nã consegue reinvindicar seus direitos, projetar o seu futuro, da sua família e com isso nós vamos reproduzindo um prejuízo social muito grande, excluídos da sociedade.
 

Qual a importância do surgimento do Observatório da Educação, criado pelo IDE, no nosso estado?

Nós temos um observatório da vida do estudante da universidade, que permite fazer um acompanhamento permanente do estudante que ingressa na universidade. Esses observatórios são bancos de dados que traduzem para a sociedade a situação educacional do estado. É uma ferramenta importante que a secretraria também está lançando dentro do Sistema Integrado de Gestão da Educação (sigeduc), que é um sistema de informatização das escolas. A universidade cedeu o sistema e o Ministério da Educação já financiou e nós já estamos dando início as matriculas online e em seguida com os diários de classe. Com isso quero dizer que nós também vamos ter um banco de dados pra ir traduzindo em tempo real para a sociedade, por meio de mapas georreferenciados toda situação de cada escola. Já temos inclusive essas informações disponíveis no site do sigeduc (sigeduc.rn.gov.br).  Essa parte do georreferenciamento já está sendo construído dentro de cada escola, não só a situação visual das escolas, mas como se encontram, a localização, as rotas dos ônibus escolares, quantos alunos, organização por sala de aula, o desempenho. E também vamos ter o observatório do IDE, cada um cumprindo um papel importante que é dar visibilidade  a educação do estado. Porque fala-se muito mas sabemos muito pouco sobre a real situação de cada escola, ate porque temos que passar de um discurso que sempre responsabiliza a secretaria e pouco responsabiliza a gestões das escolas. São as escolas que tem que mostrar resultados.
  

Qual o principal desafio em ser secretária de educação?

Primeiro é aprender a ser secretária. Eu sou pesquisadora da universidade, professora titular, tenho experiência na educação básica, comecei com 15 anos de idade alfabetizando, passei por todos os níveis, mas quando você entra numa gestão de uma secretaria os desafios são bem maiores. Porque você não faz só a gestão da pedagogia ou da educação, é de toda estrutura física, do transporte escolar, da alimentação escolar, dos prédios escolares , do pedagógico, e do pessoal. Tem também os projetos financiados, as gestões que chegam por meio dos convênios. Quando chegamos encontramos tudo muito desconectado. O primeiro desafio foi compreender a grandiosidade da secretaria e colocar foco no projeto, ensino e aprendizagem. Você vai vendo problemas de infraestrutura, como por exemplo o Colégio Atheneu. Ainda não tivemos a oportunidade de fazer o que estão reivindicando, que é a estrutura física, que será feita no próximo ano. O grande problema do colégio é a gestão pedagógica . Uma escola não se torna anacrônica porque a sua estrutura física está como a do Atheneu. Uma escola se move com professores motivados, e nesse caso temos que estar muito mais presentes. Esse é o papel da secretaria, estar presente nas escolas.  Acho que o maior papel e mais definidor de todos é estar a serviço das escolas , seja na parte pedagógica dando suporte, seja na parte estrutural mas o maior desafio é fazer com que a sociedade entenda que a escola tem um papel que precisa ser acompanhado e cobrado.

 

Observação: entrevista concedida nos primeiros dias do mês de dezembro de 2012.

Um projeto Sinduscon RN e IDE.

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