Entrevistas

04/06/2015 - O custo de uma escola que fracassa é muitas vezes maior do que o daquela que produz sucesso

Por *Cláudia Santa Rosa

Motivada pelo Decreto do Chefe do Executivo do Estado do RN, publicado na edição do Diário Oficial do Estado, do último dia 3, hoje eu ocupo este precioso espaço com a compilação de duas entrevistas que concedi à “Revista _rn”, uma delas ainda em 2014 e a outra há pouco mais de um mês.

Podemos comemorar algo da gestão de Rosalba Ciarlini na área de Educação?

Cláudia Santa Rosa - a Governadora esforçou-se para fazer diferente da sua antecessora, pelo menos no quesito permanência da mesma secretária, durante toda gestão. Nomeou uma técnica e parece ter lhe conferido prestígio e autonomia. Foram implantados sistemas para matrícula e controle de informações do órgão, mas ainda estão distantes da eficiência apregoada; cumpriu a Lei do Piso Nacional do Magistério, mas não efetivou o Plano de Cargos, Carreira e Salários que se revestiria de verdadeiros ganhos para o magistério. O concurso público, por pressão do Ministério Público, era inevitável, independente de quem estivesse à frente do governo. Porém, os servidores foram entregues às escolas sem nenhuma política que justifique o dispositivo do estágio probatório. Acho que são esses três, os grandes feitos divulgados pelo governo. Infelizmente não produziram ecos nas salas de aula.

A frequência escolar e desempenho são satisfatórios no RN?

Cláudia Santa Rosa - A frequência não tenho dados precisos, mas a taxa de evasão escolar, dos que abandonam, é de quase 20% no ensino médio e a de reprovação encontra-se por volta dos 17% no ensino fundamental. Com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) não poderia ser diferente: a edição 2013, divulgada no último mês de setembro, revelou a ineficiência do estado do RN no que tange ao cumprimento da sua obrigação constitucional de garantir o direito de todos a uma educação de qualidade. Numa escala de 0 a 10, o IDEB das escolas estaduais atingiu média de 3.9 nos anos iniciais e 3.1 nos anos finais do ensino fundamental, enquanto o 2.7 no ensino médio, um décimo a menos do que o das duas edições anteriores, confirmou a máxima: o que está ruim pode ficar ainda pior.

Qual o maior problema da escola pública no Rio Grande do Norte?

Cláudia Santa Rosa - é difícil apontar um único problema, mas para não fugir da sua pergunta, destaco o problema, salvo exceções, da gestão nada profissional, em todos os escalões. Ela é danosa porque não se guia por um planejamento com objetivos, metas, indicadores e ações bem definidas, nem recorre a normas para recomendar às escolas; tem dificuldades para gestar e executar projetos, porque é esvaziada de competência técnica e, consequentemente, não implementa processos de avaliação de desempenho, reforçando a cultura de que o serviço público é flexível, estável, seguro e que, portanto, o “natural” é relaxar, inclusive no compromisso.

O que falta na educação do Brasil?

Cláudia Santa Rosa - falta ser prioridade, efetivamente, e a legislação responsabilizar, com rigor, os gestores que não cumprirem metas, nos três planos: federal, estadual, municipal.

O que a senhora espera do novo governo estadual?

Cláudia Santa Rosa - Estou confiante. Sempre que um novo governo assume os destinos do Estado eu fico cheia de esperança. Agora não é diferente. Espero que o Governo Robinson Faria cumpra as propostas apresentadas, pelo candidato, durante a campanha eleitoral, que planeje a educação em regime de colaboração com os municípios, as entidades e organizações da sociedade civil, que seja ágil nos encaminhamentos para fazer as escolas funcionarem como deve ser, de modo que as ações mais importantes sejam aquelas que refletem diretamente nos alunos.

Professora, o que a senhora acha que está faltando para que o governo estadual decole na área de educação?

Cláudia Santa Rosa - A gestão atual é muito recente. Porém, é de se esperar que mudanças efetivas na condução da política educacional sejam anunciadas e implantadas. Por enquanto ainda não se tem conhecimento das principais estratégias de gestão para reverter a situação da educação. Não há mistério: ou se planeja e executa com profissionalismo ou continuaremos a lamentar os resultados.

Essa falta de planejamento comprometerá o ano letivo?

Cláudia Santa Rosa - a ausência de uma política de recursos humanos tem sim comprometido não somente este ano letivo. É uma perversidade! Historicamente o Estado convive com a falta de professores em muitas salas de aula, resultando em prejuízos incalculáveis para muitas crianças e jovens, comprometendo gerações. O custo de uma escola que fracassa é muitas vezes maior do que o daquela que produz sucesso. Compreender de tal forma, é o desafio.

Existiria uma fórmula para a Educação nesse momento tão difícil que o Estado enfrenta?

Cláudia Santa Rosa - Parece que um dos problemas centrais é o déficit de professores. Há muitos espalhados, distantes das escolas. Sobra frouxidão nos mecanismos de gestão para resolver a questão. Desde o governo passado instalaram professores do concurso público mais recente - ainda em estágio probatório - em gabinetes do órgão central. É uma gente que busca a estabilidade do emprego público, encharca a folha de pagamento da educação e é respaldada para ficar bem longe das escolas, pelo próprio Estado. É a mesma lógica de muitos que ingressaram há anos. É impressionante o volume de atestados médicos, de servidores que faltam ao trabalho por motivos grotescos, de acumulações ilegais de cargos, sem que se tenha controle para coibir tais práticas. O sistema faz vistas grossas e patina sem rumo para resolver em definitivo. Espero, sinceramente, que o cenário mude com a urgência necessária.

A senhora disse em sua rede social que "É inaceitável que escolas convivam com servidores que pouco servem". O quadro é tão ruim assim?

Cláudia Santa Rosa - Não generalizo, mas o quadro é péssimo. Felizmente em todas as escolas há servidores que servem, que são excelentes, e há os medíocres - quase sempre a maioria - completamente descomprometidos, embora qualificados. Não misturemos as coisas. O problema da educação não é, necessariamente, de qualificação dos profissionais, é uma questão ética. É preciso motivá-los com um plano de carreira digno, associado à avaliação de desempenho. Defendo sim a meritocracia porque é injusto tratamento igual para diferentes.

A quantas anda a educação em Natal?

Cláudia Santa Rosa - a educação em Natal reflete as mesmas dificuldades do restante do estado do RN, excetuando-se os casos de algumas escolas que são ilhas de excelência. As redes de ensino estadual e municipal enfrentam dificuldades para garantir o essencial ao funcionamento regular das escolas e, portanto, o cumprimento da função social das mesmas. Os indicadores que medem o desempenho dos estudantes, destacando-se o IDEB, revelam enormes desafios que são postos à gestão pública, ainda onerosa e pouco eficiente.

Fale-nos sobre Instituto de Desenvolvimento da Educação?

Cláudia Santa Rosa - o IDE ainda celebra uma década que foi fundado e segue se esforçando para cumprir a missão que orienta os seus fazeres: promover e realizar ações que contribuam para garantir uma educação escolar de qualidade e que favoreçam o pleno desenvolvimento de crianças e adolescentes, criando condições fundamentais para a inclusão social. Com esse foco definido, a cada ano procuramos aperfeiçoar o nosso trabalho, sempre realizando projetos que inspiram as proposições de políticas públicas e com a vertente do controle social, por meio da análise de cenários, pesquisas, estudos, levantamentos.

Seus projetos, próximos passos para o futuro?

Cláudia Santa Rosa - Permaneço diretora executiva do IDE e, em 2015, estamos a aperfeiçoar o projeto do Observatório da Educação do RN, bem como o projeto de promoção da leitura. Desde 2013 assessoro a Comissão de Educação, Cultura e Desporto da Câmara Municipal de Natal e realizarei tal trabalho enquanto os Vereadores entenderem ser pertinente. Por fim, no último mês de março celebrarei 25 anos servindo à educação estadual, sempre pisando no chão da escola, por muitos anos em sala de aula e depois em coordenação pedagógica, assim devo continuar, é a minha motivação.

*Professora, especialista em Psicopedagogia, Mestre e Doutora em Educação. Diretora Executiva do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE) e Coordenadora do “Esquina do Conhecimento, projeto pedagógico da Escola Estadual Manoel Dantas. É articulista de temas relativos à Educação e no ano de 2014 passou a publicar, também, minicontos de amor, crônicas e poemas que são tentativas de incursão pelo universo do texto literário. (educadora@claudiasantarosa.com)

Fonte: Blog do Marcelo Abdon

Um projeto Sinduscon RN e IDE.

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