Entrevistas

11/07/2013 - “Universidades e escolas precisam estar mais próximas

No Rio Grande do Norte, nenhum dos níveis de ensino atingiu a nota 5 no Ideb 2011. No ensino fundamental, a média nos anos iniciais foi de 4.1 e nos finais 3.4. O ensino médio teve o pior desempenho 3.1. Universalizar de forma qualitativa a educação básica é a única via para o desenvolvimento do país, defende a pedagoga Cláudia Santa Rosa, diretora do IDE, para quem é preciso uma reformulação e definição de competências dentro do pacto federativo. “Há muita desarrumação na divisão de responsabilidades entre estados e municípios, tendo por fim garantir uma educação de qualidade social e que chegue a todos. Democratizando o acesso”, disse. A educação básica e profissional para o Desenvolvimento do Rio Grande do Norte é o tema da 17ª edição do Seminário Motores do Desenvolvimento. O MDRN é realizado pela TRIBUNA DO NORTE, UFRN, Sistema Fecomércio/RN, Sistema Fiern e Salamanca Capital Investimentos, com patrocínio do Governo do Estado, Cosern, Assembleia Legislativa e Banco do Brasil. O Seminário, primeira edição de 2013, será realizado no próximo dia 8 de julho, no auditório do Praiamar Hotel, em Ponta Negra, às 8h. Confira a entrevista.

Júnior Santos
Cláudia Santa Rosa: É preciso maior proximidade escolas-universidades, o professor sair com seus diplomas e sabendo as realidades e preparados para enfrentarCláudia Santa Rosa: É preciso maior proximidade escolas-universidades, o professor sair com seus diplomas, cientes da realidade e preparado para enfrentá-la


Qual o cenário da educação básica no Estado?

Há avanços em nível nacional, apesar de lamentarmos que o Plano Nacional da Educação (PNE) esteja há dois anos emperrado no Congresso. Há iniciativas como a implantação de políticas e de programas federais desde o Pacto pela Alfabetização na Idade Certa, com o lançamento do Pacto para estados e municípios aderirem e alfabetizar todos aos 8 anos, a expansão da rede de institutos federais, preocupação com o ensino médio. Mas, no RN, há  algumas iniciativas que sinalizam preocupação e diversos problemas, como a falta de professores, mesmo na capital, infraestrutura das escolas deficiente, que comprometem e interrompem a normalidade do processo educativo, repercutindo no desempenho.

Qual é o desempenho atual?

Em termos de resultado, o último Ideb, considerando as metas previstas em âmbito nacional, apresentou avanços. Mas ainda há uma distorção grande. Escolas com Ideb 1; 1.2, como ocorre em Lagoa de Pedras, um dos piores resultados do país. Claro, há também algumas experiências exitosas aqui, mas o fato é que o RN não conseguiu atingir o Ideb 5 em nenhum dos níveis. É um pouco melhor nos anos iniciais do ensino fundamental, aí cai nos anos finais e despenca ainda mais no ensino médio. Não estamos bem. Se não conseguimos imprimir qualidade na educação básica, o ensino superior será deficiente. Há  metas de, até 2016, o país universalizar o acesso de todos entre 4 e 17 anos, de estarem matriculados. Mas os municípios sozinhos não conseguem cumprir as metas que lhes cabem.

Por quê?

Há uma divisão desigual do bolo tributário, a maior parte dos impostos arrecadados vai para o governo federal, que não é o gestor da educação básica, causando uma dependência por parte de estados e municípios pelo recurso federal. As competências também não são bem seguidas. O município, responsável pela educação infantil e parte do ensino fundamental não atende toda a demanda. Mesmo assim, há municípios, como Natal, arcando com programas de bolsas em universidades particulares. Não dá conta do que é sua prioridade, então, por que atender com ensino superior, de responsabilidade do governo federal? O estado mantém uma universidade estadual em constante expansão, enquanto o ensino médio continua a ser o patinho feio com o Ideb estacionado em 3, numa escala que vai de 0 a 10. Ainda há muita desarrumação na divisão dessas responsabilidades, tornando-se difícil a garantia de uma educação de qualidade social que chegue a todos, ou seja, para além da democratização do acesso.

Como está a cobertura de vagas em relação à quantidade de alunos em idade escolar no Estado?

Com base no censo de 2010, temos no Rio Grande do Norte, 970.927 pessoas com idade entre 0 a 17 anos, enquanto o número de matrículas nesse período, para  essa faixa etária, foi de 824.339. Ou seja, independente de a oferta ser do estado ou município, o fato é que não estamos atendendo toda a demanda em idade escolar. Há um percentual alto de pessoas fora do ensino médio e da educação infantil e isso causa um feito cascata: o analfabetismo funcional. Dados do Instituto Paulo Montenegro, mostram que 38% dos que saem do ensino superior não conseguem  entender e ler um texto maior e mais complexo. Não podemos continuar com a cultura de privilegiar o ensino superior em detrimento de uma educação básica de qualidade. Hoje temos índicadores assustadores na educação básica por falta de investimentos, escolas sem professor, sem condições de funcionarem.

Os professores têm preparação condizente com a realidade?

Há professores que saem das faculdades sem o conhecimento da realidade que vão enfrentar. O Brasil investe muito pouco na questão da relação entre instituições de ensino superior e escolas, de forma a linkar a formação desse futuro profissional com a ação nas escolas. Os estágios dos futuros licenciados são aligeirados e de pouca participação do futuro profesor no cotidiano da escola básica, durante o processo de formação. E isso precisa ser mudado. Os países que avançaram nos indicadores sociais investiram na educação e na formação dos professores, identificando os melhores estudantes e dando incentivos para  assumirem direto as vagas nas escolas. O Brasil ainda não acordou para isso e investe mais do que deveria em formação continuada, que deveria ser implementada por cada escola e não pelas secretarias de educação que vivem encharcadas de cursos de formação continuada, quando deveria haver mais consistência na formação inicial. As escolas precisam de mais autonomia na elaboração de programas de formação continuada e de cursos de atualização com base em suas necessidades específicas.

Como está a interação Universidades e escolas?

É preciso maior proximidade escolas-universidades, o professor sair com seus diplomas, cientes da realidade e preparado para enfrentá-la. Os currículos dos cursos de licenciatura precisam se aproximar da realidade das escolas, pois atualmente estão em desacordo. Há bons projetos para trazerem para o corpo docente das faculdades profissionais habilitados, mas os currículos dos cursos de licenciatura estão distantes do que é a necessidade educacional. E isso não é por acaso, tem a ver com o desprestígio da profissão e isso é muito grave. Ser professor, hoje, neste país beira o absurdo do desprestígio, essa percepção se sobressai inclusive na estrutura dos cursos de licenciatura. A impressão, muitas vezes, é que se  monta os cursos de licenciaturas porque parece ser mais fácil, mais baratos. Muitas vezes, não recebem grandes investimentos em tecnologia para formarem o professor, como se faz em outros cursos.

Em relatório divulgado pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD), o Brasil aparece entre os três, de 100 países analisados, com a maior taxa de evasão escolar. Por que o abandono é tão alto?

Esse índice decorre de um conjunto de fatores: a falta de estrutura física das escolas, professores mal preparados, escolas pouco atrativas e desconectadas da realidade que a gente vive. Diferente do visto em outras áreas, como medicina e as ditas ciências exatas, a tecnologia chega na educação duas ou três gerações para frente. Estamos atrasados em educação. Muitas vezes os estudantes abandonam, porque a escola não é atrativa, porque o estudante  precisa entrar no mercado de trabalho ou não encontra sentido na escola. Quando saem mais jovens, não se alfabetizam. Os professores são mal remunerados, uma parte deles estão ali no magistério porque não conseguiram outra coisa. E isso é muito grave porque reflete nos resultados de aprendizagens e na contribuiçao para tornar a escola mais ou menos atrativa. Na educação pública temos os melhores e os piores professores, há poucos medianos. Ou é top ou é fraco, infelizmente. Os primeiros identificam-se com a profissão e lutam para ser respeitada, são encantados, alguns obcecados e buscam as formas de se manterem esperançosos. E há aqueles que estão porque estão, porque foi o curso que deu certo, o concurso que fez. E os reflexos aparecem na qualidade da escola.
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O que pode ser feito para mudar essa realidade?

O Plano Nacional de Educação é fundamental, e que não passe de 2013. O país precisa do Plano e em consequência os estados e municípios também terão que elaborar  os seus planos em níveis locais. No Rio Grande do Norte, o processo está parado. Esses planos, nos três níveis, devem ser objeto de discussão com a sociedade, com escolas e todos os segmentos. Jamais devem ser planos elaborados em gabinetes, nunca! O PNE está emperrado devido as muitas emendas, sobretudo a questão do PIB, dos 10% de investimento. Mas já se conhece as 20 metas do plano nacional e não há motivos para estados e municípios não já estarem trabalhando nos seus respectivos planos.

Aprovado com emendas, o PNE traz as soluções ou é preciso...

Sinaliza perspectivas positivas de reverter mazelas antigas, porque traz a dimensão do atendimento à educação infantil, várias metas estão voltadas para a valorização do professor, demanda o atendimento a questões de infraestrutura das escolas. A partir dele, espera-se programas e ações geradas, como já vemos acontecer com o pacto nacional pela alfabetização na idade certa. Além disso há também um movimento no país que urge por medidas de destinação dos recursos do royalties do pré-sal para aumentar o volume de recursos para a educação básica. Porém, nós utilizamos mal os recursos já existentes. A gestão da educação é frágil e conseguimos usar os recursos que temos muito mal, mas também é verdade que para fazer a educação à altura que nós desejamos, com a qualidade que esperamos, nos patamares dos paises desenvolvidos, é preciso um montante bem maior de recursos. Mas só isso não resolve, é preciso investir em qualificação a gestão e dos instrumentos de controle social, assim como na valorização dos profissionais. Do contrário pode se chegar a 30% do PIB e não resolveremos os problemas da educação definitivamente.

 

Fonte: Tribuna do Norte - 04/07/2013 - Entrevista editada para ser disponibilizada neste portal. Foram feitas pequenas correções de digitação, pontuação e coesão textual para uma melhor compreensão de algumas respostas.

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