Entrevistas

11/03/2013 - Moacir Gadotti defende educação com qualidade social

 

Licenciado em Pedagogia e Filosofia, mestre em Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra (Suíça) e livre docente pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o professor Moacir Gadotti é referência quando o assunto é educação.

Aluno e parceiro do mestre Paulo Freire, considerado um dos maiores pensadores da educação do mundo, Gadotti também é diretor do Instituto Paulo Freire, em São Paulo, e autor de várias publicações na área, como Educação e poder (Corte), Paulo Freire: Uma bibliografia (Cortez), Pedagogia da Terra (Petrópolis) e Educar para um Outro Mundo Possível (Publisher Brasil, entre outras.

O renomado educador esteve mais uma vez em Natal, ministrando palestra no lançamento do portal Observatório da Educação do Rio Grande do Norte, uma parceria entre o Instituto de Desenvolvimento d Educação e o Sindicato da Indústria de Construção Civil que disponibiliza uma série de ferramentas e informações que buscam contribuir com a melhoria da educação potiguar. Entre uma atividade e outra, Moacir Gadotti nos deu a seguinte entrevista:

1) Vamos iniciar com  uma  pergunta tradicional: como avalia o atual estagio  de educação no Pais?

A educação vem avançando no País em termos quantitativos, agora o grande desafio é garantir a qualidade do ensino. Do ponto de vista teórico, a questão da qualidade está solucionada, varias pesquisas mostram como o conhecimento acontece no cérebro, como ocorre o desenvolvimento.  Neste aspecto as condições sociais são determinantes. Condições sociais de moradia, de trabalho, de emprego, de saúde... A educação não está desligada, não é um problema setorial, é um problema estrutural com os outros condicionantes. Então, a qualidade da educação tem a ver com esses outros fatores, está ligada. Não estou dizendo que precisa primeiro resolver o problema da moradia, do emprego, do transporte, para depois resolver a educação. É tudo junto. Nas últimas décadas tivemos uma boa legislação e um plano nacional de educação, que bem ou mal faz um diagnóstico; um sistema nacional de avaliação de educação básica, o Fundeb; FHC deixou ainda os parâmetros curriculares nacionais. E Lula avançou mais ainda. Há um avanço. Mas precisamos avançar mais.

2) Porque nosso ensino é tão ruim?

Precisamos despertar na criança, no jovem, o desejo de aprender. É preciso que o que eu sei tenha sentido para mim. E quantas crianças não vão para a escola e se perguntam que sentido tem aprender isso? A formação do professor tem que ser numa direção dele ser um orientador da aprendizagem, incentivador. Tem dados que mostram que, quando um professor aprende com o aluno, pesquisa com o aluno, está com o aluno, gosta do que está ensinando, as crianças se interessam mais em aprender. Diálogo é fundamental. Que dialogue com a comunidade, com os pais, que seja um gestor do conhecimento, um animador cultural. Então, depende muito dele ser um dirigente, não um burocrata, executor de programa. Ele precisa ser um dirigente, que tenha ideia, que estimule a participação política. Hoje, defendemos o conceito de educação com qualidade social, que é um conceito político que significa qualificar a qualidade. Os antigos critérios de qualidade já não são suficientes. É preciso educar para o imprevisível, como diz Edgar Morin. A qualidade do ensino é resultado da gestão democrática e da capacidade do individuo de participar de sua formação. Como Paulo Freire dizia: só aprendo aquilo na qual eu participo ativamente.

3) Há uma máxima em economia que diz que só existe políticas publicas se houver um orçamento compatível. Como está a questão do orçamento na educação?

 A própria presidente Dilma disse, em programa de rádio, que os recursos para a educação não são suficientes. Está aprovado no Plano Nacional de Educação o aumento para 7%, o que é equivalente ao percentual investido pelos países ricos. Mas, além disso, há também o problema da diversidade de sistemas, tem o municipal, o estadual, o nacional. As pessoas têm um plano e não trabalham articulado com o governo federal. Eles têm o seu sistema, inclusive de ensino superior, e trabalham de forma mais autônoma. Este ano o Congresso deverá colocar para aprovação o plano nacional de educação, que foi discutido em todos os estados. É preciso ficar atento às discussões.

4) Apesar dos avanços registrados, ainda convivemos com atrasos como o analfabetismo. Como superar esta chaga social?

De acordo com o IBGE, aumentou o número oficial de analfabetos no Brasil. Nós temos hoje o mesmo número de analfabetos que tinha quando Paulo Freire deixou o Brasil para ir para o exílio: em torno de 14 milhões de pessoas. Continua e aumentou. O analfabetismo é a negação de um direito. O analfabetismo tem a ver com um conjunto do bem viver das pessoas. Uma pessoa está na rua das 5 horas da manhã até às 7 horas da noite, catando lixo, e às 7 horas da noite vai para uma sala de aula, é muito difícil que tenha condições, depois de um dia passando fome, de se alfabetizar. Trata-se de um problema complexo, que envolve varias outras questões. Temos que redefinir a política nacional de alfabetização. A grande homenagem que poderíamos fazer a Paulo Freire seria acabar com o analfabetismo.  Acho que o Paulo deu para a educação brasileira uma contribuição enorme, por várias razões: primeira, a fundação do Mova, movimento de alfabetização, para mostrar que a superação do analfabetismo brasileiro precisa que a sociedade se envolva. O Estado não dá conta sozinho, a luta contra o analfabetismo exige a mobilização de toda sociedade.

5) Como o sr. vê o futuro do professor, neste cenário de constantes mudanças com o uso de novas tecnologias ?

Não tenho ideia do que o virtual pode vir a fazer com nossas vidas. Claro que todas essas situações e visões políticas têm impactos significativos sobre a profissão docente. A função do professor está mudando, em função do avanço da  tecnologia. Reforça-se no educador a função de ser um problematizador, um organizador da aprendizagem, muito mais do que um simples transmissor de conhecimentos. Ele precisa acolher a informação, despertar no aluno o desejo de aprender, construir o sentido do mundo. Só assim os estudantes verão sentido na escola, já que a quantidade de informações que atualmente está disponível na internet é incalculável. Claro que surgem medos. Para superar essas incertezas, creio que o melhor caminho seja abrir espaço para a constante qualificação do professor.

6) Por fim, qual sua opinião sobre  implantação de um portal como o Observatório da Educação?

Não é por acaso que se lança um observatório como este, com espaço de trocas de ideias, de formação, disponibilização de pesquisas e indicadores, ouvidoria e outros. A constituição de 1988 coloca como clausula pétrea a democracia participativa. O observatório traz esse tipo de participação num momento virtuoso da educação brasileira. Temos que ter respeito pelas coisas construídas com o povo. Toda contribuição da sociedade civil é bem vinda.

 

por Eugênio Parcelle, especial para o Portal Observatório da Educação do RN.

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